Bicicletando

Entradas do Agosto 2008

Troca de gentilezas

Agosto 28, 2008 · 1 Comentário

O carroceiro. Atrás dele, uma 4 por 4. Não é possível ver o motorista, e a gente fica pensando que não existe ninguém dirigindo a máquina… E ela buzina sem parar.

− Passa por cima, filho da puta − sussurra o carroceiro, olhar firme, iscado pelo ponto de fuga da avenida.

Um monte de lixo chama sua atenção e ele pára. A 4 por 4 continua buzinando e tenta sair de lado, mas o tráfego na outra pista não permite. Uma fila de carros começa a se formar. O porteiro sai do prédio.

− Tem bastante coisa pra ti hoje.

− Opa. Que beleza.

− Não é melhor tirar a carroça da rua? Coloca aqui na calçada, ó?

O carroceiro observa a fila de carros, parece conscientizar o significado das buzinadas e gritos. Com um cajado de madeira, de ponta gasta, espeta os sacos de lixo, procurando o material que lhe interessa catar. O porteiro intervém:

− Desse jeito tu vai deixar eles nervosos. Não vai tirar?

− Pois olha… Se eles pedissem com educação, eu tirava.

Categorias: Andando pela cidade

O tempo do carro contra o tempo do pedestre

Agosto 20, 2008 · Deixe um comentário

06:40 – 14/01/2008

Zero Hora

Sinaleira rápida demais atrapalha pedestres

     Para cruzar a Rua Ramiro Barcelos perto do número 11.000 é preciso contar os segundos precisamente. Por causa do tráfego intenso, o tempo programado para travessia de pedestres está no limite previsto por uma média universal. Quem tem dificuldades de caminhar com rapidez pode ser prejudicado. Zero Hora permaneceu no local, na esquina com a Avenida Independência, por 30 minutos. Para cruzar os 10 metros da via, são oferecidos sete segundos de sinal verde. Depois disso, a mão vermelha começa a piscar por mais cinco segundos. Quem tem dificuldade para caminhar, como idosos, precisa contar com a boa ação dos motoristas. A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) reconhece a brevidade do sinal verde para os pedestres, mas informa que o tempo é calculado em cima de uma média universal: o pedestre percorre 1,2 metro por segundo. Em algumas sinaleiras, é possível dar mais margem de tempo na travessia. Em outras, como a da Ramiro, o fluxo no trecho não permitiria. – Nesse semáforo, estamos no limite para evitar que o cruzamento tranque. Alguns metros para baixo, na André Puente, já damos mais tempo porque não há esse problema. Idosos podem sentir dificuldade, mas precisamos alertar que o motorista precisa respeitar e esperar que a pessoa conclua a travessia mesmo com o sinal já aberto – explica Paulo Haro, da equipe de programação semafórica.

 

O texto acima explicita a posição que este blog critica. Vejamos: o argumento da EPTC se baseia no problema que seria aumentar o tempo para as pessoas atravessarem a rua, já que, nesse caso, os carros formariam um engarrafamento na quadra anterior. Como sempre, a prioridade de quem planeja nosso trânsito é o fluxo de automóveis e não de pessoas. Embora, é claro, o discurso seja sempre aquele a respeito de “humanizar” o trânsito e bla bla bla.

 

Pois bem, o argumento deste blog é de que se há carros na rua, ocupando tanto espaço da cidade a ponto de as pessoas não poderem mais andar tranquilamente, então é racional e urgente a prefeitura e a EPTC diminuírem a quantidade de carros circulando (investindo em transporte público e incentivando viagens a pé ou de bicicleta). Ao invés disso, o que se faz é apressar pedestres, construir viadutos mirabolantes e perimetrais desumanas.

 

O texto da EPTC traz à tona um tipo comum, mas cada vez mais imperceptível, de desrespeito ao ritmo do corpo humano, que é condição direta para o respeito zeloso, amparado com argumentos técnicos, do ritmo dos automóveis. Quando os carros forem tantos que sete segundos para um pedestre atravessar uma rua “atrapalhar o trânsito”, o que fará a EPTC? Proibirá pedestres no horário de pico?

Categorias: O carro em primeiro lugar

Em Porto Alegre, 19 horas

Agosto 14, 2008 · 2 Comentários

Vi ontem, na Rede Pampa, uma entrevista com o prefeito e candidato José Fogaça. Algumas das falas do PMDBista me preocuparam.

O prefeito argumentou que o sistema de transporte coletivo precisa ser revitalizado. Concordei na hora, dando um pulo no sofá! Mas… Para explicar porque, o prefeito citou um exemplo. Pediu que o entrevistador fosse até a av. Farrapos às 19h. Pediu que o entrevistador observasse “a parede de ônibus” que se forma ao longo da avenida, ininterruptamente. Pediu, por fim, que o entrevistador olhasse para dentro dos ônibus. E largou: “Você vai ver cinco ou seis pessoas, só isso”.

Como o prefeito não pega ônibus e eu pego diariamente, me dou o direito de fazer uma correção. Se algum ônibus carrega cinco pessoas às 19h, se trata de exceção. A regra, nesse horário, é um sistema abarrotado e lento (por causa dos automóveis, que, analisando bem, atrapalham o trânsito dos ônbius). Ora, o sistema de transporte coletivo de Porto Alegre precisa de melhorias, mas não é porque, às 19h, os ônibus estão vazios. Às 19h, pegar a maior parte das linhas que circula em Porto Alegre é algo que está no nível do insuportável. O prefeito insulta quem usa ônibus quando fala uma barbaridade dessas e generaliza uma exceção − se é que existe essa exceção. Insulta a senhora que encontrei ontem no Rubem Berta/Protásio, precisamente às 18h30min. Ela me contou que, em resposta a uma reclamação enviada para a EPTC, recebeu a resposta de que cada usuário tem em média “não sei quantos metros quadrados, o que significa conforto e qualidade”. A senhora, como eu, estava de pé, prensada no corredor, ocupado por três filas de passageiros. “Pareço confortável?” – ela me perguntou, rindo. Enquanto isso, o cobrador gritava com uma mulher, com uma criança de colo: “Pô, mas também, querer pegar ônibus, com criança, a essa hora? Vocês tem que se flagrar, pô!”

Fogaça também falou de um projeto para a praça XV, em frente ao Mercado Público. Se entendi bem, tem gente querendo liberar alguns locais atualmente fechados para o trânsito de automóveis. Conforme pensa o prefeito, isso vai humanizar os locais, dificultando seu uso pelos camelôs. Humanizar? Com carros? Essa é nova. Mais uma vez, com todo o respeito, mas com igual indignação, terei que considerar absurda uma proposta dessas. Em todo o planeta, as cidades mais espertas fecham, reduzem e limitam espaços e usos de automóveis. Em Porto Alegre, dia após dia, acontece o contrário.

Categorias: Políticas de trânsito · Uncategorized