Vi ontem, na Rede Pampa, uma entrevista com o prefeito e candidato José Fogaça. Algumas das falas do PMDBista me preocuparam.
O prefeito argumentou que o sistema de transporte coletivo precisa ser revitalizado. Concordei na hora, dando um pulo no sofá! Mas… Para explicar porque, o prefeito citou um exemplo. Pediu que o entrevistador fosse até a av. Farrapos às 19h. Pediu que o entrevistador observasse “a parede de ônibus” que se forma ao longo da avenida, ininterruptamente. Pediu, por fim, que o entrevistador olhasse para dentro dos ônibus. E largou: “Você vai ver cinco ou seis pessoas, só isso”.
Como o prefeito não pega ônibus e eu pego diariamente, me dou o direito de fazer uma correção. Se algum ônibus carrega cinco pessoas às 19h, se trata de exceção. A regra, nesse horário, é um sistema abarrotado e lento (por causa dos automóveis, que, analisando bem, atrapalham o trânsito dos ônbius). Ora, o sistema de transporte coletivo de Porto Alegre precisa de melhorias, mas não é porque, às 19h, os ônibus estão vazios. Às 19h, pegar a maior parte das linhas que circula em Porto Alegre é algo que está no nível do insuportável. O prefeito insulta quem usa ônibus quando fala uma barbaridade dessas e generaliza uma exceção − se é que existe essa exceção. Insulta a senhora que encontrei ontem no Rubem Berta/Protásio, precisamente às 18h30min. Ela me contou que, em resposta a uma reclamação enviada para a EPTC, recebeu a resposta de que cada usuário tem em média “não sei quantos metros quadrados, o que significa conforto e qualidade”. A senhora, como eu, estava de pé, prensada no corredor, ocupado por três filas de passageiros. “Pareço confortável?” – ela me perguntou, rindo. Enquanto isso, o cobrador gritava com uma mulher, com uma criança de colo: “Pô, mas também, querer pegar ônibus, com criança, a essa hora? Vocês tem que se flagrar, pô!”
Fogaça também falou de um projeto para a praça XV, em frente ao Mercado Público. Se entendi bem, tem gente querendo liberar alguns locais atualmente fechados para o trânsito de automóveis. Conforme pensa o prefeito, isso vai humanizar os locais, dificultando seu uso pelos camelôs. Humanizar? Com carros? Essa é nova. Mais uma vez, com todo o respeito, mas com igual indignação, terei que considerar absurda uma proposta dessas. Em todo o planeta, as cidades mais espertas fecham, reduzem e limitam espaços e usos de automóveis. Em Porto Alegre, dia após dia, acontece o contrário.