Bicicletando

Entradas do Setembro 2008

O que eu vou comprar quando crescer

Setembro 26, 2008 · Deixe um comentário

Nas últimas semanas, de diversas maneiras, fomos informados de que Porto Alegre é a segunda cidade mais poluída do Brasil. Os mesmos jornais que informam sobre a poluição, como se sabe, lucram alto com propagandas de automóvel e… bem, e jornalismo, ou algo assim…

Hoje de meio-dia, deu na TV uma reportagem sobre jovens que guardam dinheiro da mesada. Eram jovens brancos, classe média, possivelmente média alta, frequentadores ideais dos shoppings e futuros consumidores privilegiados do jornalismo mainstream gaúcho (privilegiados porque a maior parte das reportagens é conduzida a partir do ponto de vista dos pais deles).

Ora bem, o repórter não parava de dizer (e disse, na verdade, três ou quatro vezes) algo assim: “Quando esses jovens fizerem 18, vão poder comprar seu primeiro carro, com o dinheiro da mesada”. Vocês, que têm ações aplicadas em montadoras de automóvel, devem aplaudir esse rapaz e agradecê-lo por mais esse bom serviço jornalístico. E, aos jovens que ganham mesada, garanto que não precisam se preocupar: o pai de vocês vai comprar o carro – caso, é claro, ainda haja planeta pra esse carro girar. Possivelmente, pra dar exemplo e limpar a consciência, o carro vá ser um “Ecosport”.

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Sinal vermelho

Setembro 17, 2008 · 1 Comentário

Conheci a Lúcia quando dei aula como estagiário num colégio público, aqui em Porto Alegre. Ela era uma excelente aluna, crítica e autônoma. Bom, a Lúcia segue firme em seus estudos e logo vai acabar o ensino médio. Recentemente, ela teve a oportunidade de viajar pra Holanda e eu pedi pra ela escrever um texto e enviar algumas fotos pro blog, contando um pouco de como é a história das bicicletas por lá. O texto e as fotos estão aí, com um título sugerido pela própria Lúcia. O contato da autora é: lucia.marques@ymail.com

“Porto alegre, 18h30, mais especificamente na hora do rush. Buzinas, engarrafamento e muita fumaça.

Corredor de ônibus em obras e lá vai mais meia hora.

Um trajeto de 20 minutos se torna de 40, 50 e, finalmente, de uma hora.

Mas, por que tudo isso? Pra que andar de carro a essa hora? Ainda é tão cedo e o dia está tão lindo!

Senhores motoristas, andem na rua, tirem suas bicicletas da garagem, cantem sozinhos, peguem um ônibus, vamos, por favor, colaborem!

Mas não. Já passou uma hora e nada, parece que essas brilhantes idéias não passaram na cabeça de ninguém. Todos com seus carros, xingando todos os parentes possíveis do motorista do carro da frente.

Vontade de descer do ônibus e ir a pé para casa. Seria muito mais rápido e gratificante, mas agora já paguei a passagem e, para mim, não custa esperar uns dez minutinhos a mais…
Olhando pra rua, distraída com o sinal vermelho, pensei, com saudades da Holanda: “lá nunca vi um engarrafamento”. Pode até parecer um pensamento euro-favorecedor, mas lá, o trânsito funciona. E sabe por que? Rotas para bicicletas eficientes e pessoas conscientes.

Seja no interior da Holanda ou em Amsterdam, simplesmente funciona. Todos respeitam tanto as leis que chega a dar nojo. Andar de bicicleta todos os dias lá é como fazer xixi de pé para os homens. Lá ninguém é completo sem sua bicicleta, é como se fosse uma extensão do corpo.

Seja senhora, seja criança, seja doutor ou mendigo, todos têm uma bicicleta e todos respeitam o trânsito…

Acordo dez minutos depois de meus pensamentos e vejo, já faz quase uma hora e meia e nada. Desisto. Desço na primeira parada e vou pra casa, falando sozinha e pensando nas promessas de políticos com soluções para o trânsito, que nunca irão funcionar…”

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Mais prédios…

Setembro 16, 2008 · 1 Comentário

Recebi por email o texto abaixo. Ele tem bastante a ver com o assunto discutido no post anterior e exemplifica bem a “posição social” assumida por uma grande quantidade de pessoas que agem de modo qualificado e democrático na tentativa de construir e manter bairros bons pra se viver em Porto Alegre. Infelizmente, em contrário, a prefeitura municipal tem atentido a interesses sem respaldo popular ou com respaldo opiniático, tão volúvel quanto irresponsável.

Não custa salientar que esse problema não ocorre apenas em Porto Alegre, mas também em outras cidades, como por exemplo Bento Gonçalves, onde nasci e voto, e de onde li, não sem espanto pela irresponsabilidade a um tempo interessada e ingênua de seu conteúdo, o plano diretor. Segue o texto que me foi enviado:

O blog dos Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho convida para uma manifestação silenciosa que será realizada na quarta-feira (17), às 14 horas, nas galerias do plenário da Câmara de Vereadores de Porto Alegre contra o projeto Pontal do Estaleiro. Esse projeto prevê a construção de um complexo arquitetônico (6 prédios) de 60 mil metros quadrados na área do antigo Estaleiro Só. As entidades que se opõe ao projeto apontam os seguintes problemas:

Questão Ambiental – Se aprovado, causará grande impacto ao ambiente natural da região. As construções formarão uma barreira artificial impedindo a passagem dos ventos para a cidade e da luz do sol para a vizinhança, além do grande aumento da produção de esgoto cloacal que na região é ligado ao pluvial.

Questão Urbanística – O projeto trará problemas de trânsito pela Av. Padre Cacique, que já terá aumento de fluxo de automóveis pela inauguração do Barra Shopping Sul a partir de outubro.

Vocação da Orla – Lazer e recreação é a vocação de qualquer orla no mundo. A construção do empreendimento inviabilizaria a implantação de um grande Parque, que é um anseio da população, independente de classe social. A Orla do Guaíba pertence a toda população da cidade. As orlas são Áreas de Proteção Permanente. Não podem estar acessíveis apenas aos moradores e freqüentadores dos estabelecimentos ali localizados, o belo pôr-do-sol e a vista do nosso Guaíba.

Questão Ética e Legal – O empreendedor quando adquiriu o terreno em leilão pagou um valor mais baixo por estar impedida por lei municipal a construção de prédios residenciais na área. Agora quer que se mude a lei para auferir maiores lucros. Caso a lei seja alterada, o município estará sendo irresponsável com as pessoas que morarão ali, pois é área com risco de enchentes e negligente, anti-ético e banal ao desrespeitar a lei, sacrificando o bem-estar da maioria da população para favorecer a ganância de uma minoria.

Integram a campanha “Não ao projeto Pontal do Estaleiro” as seguintes entidades: Agapan, Amigos da Rua Gonçalo de Carvalho, Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Independência (Amabi), Movimento Viva Gasômetro, Associação Moinhos Vive, Associação dos Moradores do Bairro Ipanema (Ambi), Associação dos Moradores da Auxiliadora (Ama), Centro

Comunitário de Desenvolvimento da Tristeza, Vila Assunção, Vila Conceião e Pedra Redonda (CCD), Defesa Civil do Patrimônio Histórico (Defender), Associação dos Moradores da Cidade Baixa, Associação Comunitária Jardim Isabel Ipanema (Ascomjip), Conselho Estadual da Umbanda e dos Cultos Afro-Brasileiros do RS (Ceucab/RS), Associação dos Moradores do Sétimo Céu (AMSC), Movimento Petrópolis Vive, União pela Vida (UPV), ONG Solidariedade, Movimento Higienópolis Vive, Associação dos Moradores do Bairro Chácara das Pedras (Amachap) e Instituto Biofilia.

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Subindo os andares do progresso

Setembro 12, 2008 · Deixe um comentário

Alguém me disse que, no bairro Cidade Baixa, moradores estão protestando contra a construção de um prédio de 19 andares (ou 18) e 197 apartamentos.

Dei uma googlada e pude ler comentários contrários e favoráveis à ação dos moradores. Simplificando, percebi um conflito de três vozes: a construtora (Melnick, segundo li), os moradores e os que opinam a favor da obra.

Os moradores argumentam com questões que seus contrários debocham. Sombra, umidade, corte de árvores, descaracterização do bairro. Quem apóia a obra argumenta pela “modernização”: argumenta-se que um espigão vai vitalizar o lugar, diminuir a violência e assim por diante. Alguns acusam os moradores de terem “interesses” no seu pleito. A construtora nada disse, e nem precisava. Ela recebeu imediata solidariedade de diversos concidadãos que falaram por ela.

Porto Alegre tomou, ao longo do último século, uma sucessão de escolhas equivocadas, tentando se “modernizar”, como se modernizar significasse abrir avenidas e erguer espigões, segregando os “pobres” na Restinga e no Rubem Berta. Isso vem desde os tempo de prefeitos como Alberto Bins, passa pelas administrações do PT e chega aos nossos dias, com o prefeito Fogaça propondo que as ciclovias sejam financiadas por “compensações” de construtoras (as mesmas que atazanam a vida dos bairros com espigões etc.).

Existem na cidade diversas associações de moradores lutando para que os bairros não recebam um número exagerado de prédios e que os prédios não sejam discrepantes com as construções já erguidas, respeitando a geografia, a história e os seres humanos. Algumas dessas associações se posicionam há anos a respeito do assunto e tentam, entre outras reivindicações, alterar o plano diretor. Portanto, existe um trabalho atento e acumulado, que vai para além de interesses momentâneos e além de opiniões momentâneas. Ou seja, um trabalho que cria posições sociais duradouras e ativas, o que, para além de posições tomadas imediatamente, é um dos fundamentos da democracia (ao contrário do que a maior parte dos meios de comunicação faz parecer).

Em contraposição, inúmeras pessoas, geralmente não ligadas a associações, nem (ainda) prejudicadas diretamente pelas obras “modernizadoras”, defendem que Porto Alegre ficou para trás (de quem?) e que construir espigões “bem vigiados e iluminados” ajudaria na revitalização de certos bairros. Deve ser o que os espigões fizeram com o centro, não é?

O conflito evidencia como alguns portoalegrenses, de modo bastante ingênuo, ligam a idéia de grandes construções com a idéia de modernização, quando toda a história da cidade ensina justamente o contrário.

Então, coloquemos as coisas como elas são: a construção de um prédio de 19 andares no coração da Lima e Silva não significará progresso ou modernização. Significará lucro para alguém, um “bom” apartamento para outrem e assim por diante. Para outros, significará dias mais ensombreados e úmidos, desvalorização de seu imóvel e, talvez mais que tudo, algo como uma sensação de impotência, já que a cidade está pensada para aqueles que gostam do “progresso”, de viadutos e prédios (mas, antes disso, está pensada do ponto-de-vista de quem busca lucros. E isso, é claro, não é ruim, desde que interesses e necessidades fundamentais de quem não lucra sejam respeitados na mesma medida daquelas necessidades nem tão fundamentais assim daqueles que lucram fazendo viadutos e prédios).

Disso, me ficam algumas perguntas: por que tanta gente procura defender interesses que não são seus? Por que tanta gente vê modernização onde está apenas mais um prédio grande e o interesse financeiro, francamente amparado pela legislação, de uma construtora?

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