Alguém me disse que, no bairro Cidade Baixa, moradores estão protestando contra a construção de um prédio de 19 andares (ou 18) e 197 apartamentos.
Dei uma googlada e pude ler comentários contrários e favoráveis à ação dos moradores. Simplificando, percebi um conflito de três vozes: a construtora (Melnick, segundo li), os moradores e os que opinam a favor da obra.
Os moradores argumentam com questões que seus contrários debocham. Sombra, umidade, corte de árvores, descaracterização do bairro. Quem apóia a obra argumenta pela “modernização”: argumenta-se que um espigão vai vitalizar o lugar, diminuir a violência e assim por diante. Alguns acusam os moradores de terem “interesses” no seu pleito. A construtora nada disse, e nem precisava. Ela recebeu imediata solidariedade de diversos concidadãos que falaram por ela.
Porto Alegre tomou, ao longo do último século, uma sucessão de escolhas equivocadas, tentando se “modernizar”, como se modernizar significasse abrir avenidas e erguer espigões, segregando os “pobres” na Restinga e no Rubem Berta. Isso vem desde os tempo de prefeitos como Alberto Bins, passa pelas administrações do PT e chega aos nossos dias, com o prefeito Fogaça propondo que as ciclovias sejam financiadas por “compensações” de construtoras (as mesmas que atazanam a vida dos bairros com espigões etc.).
Existem na cidade diversas associações de moradores lutando para que os bairros não recebam um número exagerado de prédios e que os prédios não sejam discrepantes com as construções já erguidas, respeitando a geografia, a história e os seres humanos. Algumas dessas associações se posicionam há anos a respeito do assunto e tentam, entre outras reivindicações, alterar o plano diretor. Portanto, existe um trabalho atento e acumulado, que vai para além de interesses momentâneos e além de opiniões momentâneas. Ou seja, um trabalho que cria posições sociais duradouras e ativas, o que, para além de posições tomadas imediatamente, é um dos fundamentos da democracia (ao contrário do que a maior parte dos meios de comunicação faz parecer).
Em contraposição, inúmeras pessoas, geralmente não ligadas a associações, nem (ainda) prejudicadas diretamente pelas obras “modernizadoras”, defendem que Porto Alegre ficou para trás (de quem?) e que construir espigões “bem vigiados e iluminados” ajudaria na revitalização de certos bairros. Deve ser o que os espigões fizeram com o centro, não é?
O conflito evidencia como alguns portoalegrenses, de modo bastante ingênuo, ligam a idéia de grandes construções com a idéia de modernização, quando toda a história da cidade ensina justamente o contrário.
Então, coloquemos as coisas como elas são: a construção de um prédio de 19 andares no coração da Lima e Silva não significará progresso ou modernização. Significará lucro para alguém, um “bom” apartamento para outrem e assim por diante. Para outros, significará dias mais ensombreados e úmidos, desvalorização de seu imóvel e, talvez mais que tudo, algo como uma sensação de impotência, já que a cidade está pensada para aqueles que gostam do “progresso”, de viadutos e prédios (mas, antes disso, está pensada do ponto-de-vista de quem busca lucros. E isso, é claro, não é ruim, desde que interesses e necessidades fundamentais de quem não lucra sejam respeitados na mesma medida daquelas necessidades nem tão fundamentais assim daqueles que lucram fazendo viadutos e prédios).
Disso, me ficam algumas perguntas: por que tanta gente procura defender interesses que não são seus? Por que tanta gente vê modernização onde está apenas mais um prédio grande e o interesse financeiro, francamente amparado pela legislação, de uma construtora?