Bicicletando

Entradas do Outubro 2008

Noite

Outubro 30, 2008 · Deixe um comentário

As eleições acabaram e tanto o PT quanto o PMDB evidenciaram que continuam pensando o trânsito da cidade segundo modelos destrutivos e segregadores − e é melhor nem falar nos delírios dos outros partidos, que começavam em um trem de função migratória e acabavam em zilhões de viadutos. A ênfase continua sendo o automóvel, em detrimento de pedestres, ciclistas e usuários do transporte público.

Não bastasse a imaginação política − já que se tratava somente de promessas, elas poderiam ao menos ser mais humanas − ser tão constrangedoramente limitada, a realidade executiva visível na fiscalização de trânsito é servil ao motorista-padrão (violento, grosseiro e preconceituoso), preocupada mais em fazer o fluxo de automóveis ir em frente do que no bem-estar geral. Por isso, nunca se vê azuizinhos multando quem pára na faixa de pedestres, quem desrespeita o sinal para pedestres ou quem estaciona em espaços reservados, como acontece todos os domingos nos entornos dos parques. A prefeitura levou em frente, inclusive, a barbaridade de desativar o “Caminho dos Parques” (mas não se envergonhou de usar o “Caminho” em imagens de sua campanha política), abrindo uma fresta para o que poderá ser o futuro das ciclovias que começam a ser construídas sem previsão orçamentária, contando com doações e compensações. Durarão cinco anos? Moramos numa das cidades mais poluídas do Brasil, um lugar em que os índices de consumo (e portanto tráfico) de drogas batem os tetos em escala planetária, uma cidade violenta e desigual. É tempo de trazermos isso para a frente do debate. Por enquanto, uma espécie de paisagismo do imaginário nos impregna a visão, dando a idéia de um tranqüilo e benevolente pôr-de-sol, quando sobrevivemos, mal e porcamente, a uma temível e cada vez mais violenta noite.

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Otários e buzinas

Outubro 26, 2008 · Deixe um comentário

E no quinto dia útil, já sem matéria prima, Deus fez os otários. Juntou todos, deu um carro com buzina estridente para cada um deles e soltou-os em Porto Alegre. E Deus disse: “Buzinai, idiotas”.

Hoje é dia do segundo turno das eleições. Moro ao lado de uma escola onde existem diversas seções de votação. A rua não tem largura. Ficam duas fileiras de carros estacionados e, no meio, passa somente uma fila de carros por vez. Assim, os otários de trás precisam esperar alguns segundos quando o otário da frente quer estacionar. Forma-se uma fila de cinco, seis carros, sempre desfeita depois de pouquíssimo tempo. Pouquíssimo tempo que é suficiente para que os otários de trás resolvam botar a mão na buzina.

Os otários, é claro, nunca pensam que ao buzinar incomodam o bairro inteiro. Incomodam alguém que, como eu, está estudando e lendo desde às sete da manhã. Incomodam a senhora aqui do primeiro andar, que tem Alzheimer e cuja janela fica de frente para a rua. Enchem o saco do dono do bar, que, desde cede, ouço dizer coisas do tipo: “Pra que buzinar, tchê?”; “Pára com isso, por favor!”; “Mas que exagero, tchê! A senhora poderia ter a delicadeza de parar de buzinar?”; “Vai tomar banho, porra!”… Atazanam os estudantes do prédio da frente, que chegaram tarde e tentam curar a ressaca.

Que tipo de otário pensaria que, por estar num carro, tem o direito de exigir que todos os outros se movam e executem tarefas tão ligeiramente quanto ele, otário, deseja? Que tipo de otário se comporta como uma criança chorona no supermercado, gritando, batendo o pé, perdendo a compostura de morador do Moinhos de Vento? Resposta: o motorista portoalegrense, esse mesmo que está buzinando agora, nos ouvidos do dono do bar, da senhora com Alzheimer, dos estudantes, e meus, nos ouvidos, enfim, do bairro inteiro, como se o mundo devesse obedecer o seu capricho bunda-mole de nunca esperar, nunca parar, nunca ficar atrás de ninguém.

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Compensações

Outubro 21, 2008 · Deixe um comentário

A grande quantidade de protestos e debates a respeito da construção de prédios em diversos bairros de Porto Alegre faz com que eu fique mais convicto em defender a posição de que não é boa idéia construir ciclovias por meio de “compensações”. A razão é evidente: em troca das ciclovias, moradores de diversos bairros acabam recebendo de presente transtornos perenes.

Como tanto quem anda de bicicleta quanto quem pretende defender uma arquitetura humana em seu bairro partem de pressupostos parecidos, isto é, que a cidade possa ser planejada a partir dos interesses e demandas de seus moradores e não apenas de quem faz negócio nela e com ela, me parece um contra-senso esse aspecto específico do plano cicloviário.

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Pensar no pedestre

Outubro 3, 2008 · Deixe um comentário

Quando comecei a pedalar, eu me perguntava se devia respeitar as leis de trânsito. Devia andar, por exemplo, sempre na mão dos carros? Aos poucos aprendi que, em Porto Alegre, é objetivamente impossível pedalar seguindo as normas, porque o trânsito é pensado para quem está dentro do carro. O melhor é ir pegando as manhas de cada rua. Cuido mais quando passo por ruas ainda não conhecidas, estudo como posso cumprir meu trajeto antes de sair de casa e assim vai a vida. O google maps tem me ajudado bastante. 

Nos últimos dias, para deixar bem claro que os motoristas são cidadãos mais relevantes do que os outros, a EPTC chegou ao absurdo de diminuir o tempo de travessia dos pedestres em diversas sinaleiras.

A esse respeito, num contexto que debatia as áreas de maior atropelamento na cidade, a engenheira civil Mara Chagas Diógenes, disse à Zero Hora, o grifo é meu:

— Ainda falta, aos planejadores, pensar no pedestre. O veículo sempre foi priorizado. Isso começou a mudar.

Ainda falta, sem dúvida. A pé, de bicicleta ou de ônibus, sinto que Porto Alegre é traçada para quem tem carro. Os outros se viram como podem, porque, se os ”planejadores” não pensam no pedestre, por quais diabos o motorista iria pensar?

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