As eleições acabaram e tanto o PT quanto o PMDB evidenciaram que continuam pensando o trânsito da cidade segundo modelos destrutivos e segregadores − e é melhor nem falar nos delírios dos outros partidos, que começavam em um trem de função migratória e acabavam em zilhões de viadutos. A ênfase continua sendo o automóvel, em detrimento de pedestres, ciclistas e usuários do transporte público.
Não bastasse a imaginação política − já que se tratava somente de promessas, elas poderiam ao menos ser mais humanas − ser tão constrangedoramente limitada, a realidade executiva visível na fiscalização de trânsito é servil ao motorista-padrão (violento, grosseiro e preconceituoso), preocupada mais em fazer o fluxo de automóveis ir em frente do que no bem-estar geral. Por isso, nunca se vê azuizinhos multando quem pára na faixa de pedestres, quem desrespeita o sinal para pedestres ou quem estaciona em espaços reservados, como acontece todos os domingos nos entornos dos parques. A prefeitura levou em frente, inclusive, a barbaridade de desativar o “Caminho dos Parques” (mas não se envergonhou de usar o “Caminho” em imagens de sua campanha política), abrindo uma fresta para o que poderá ser o futuro das ciclovias que começam a ser construídas sem previsão orçamentária, contando com doações e compensações. Durarão cinco anos? Moramos numa das cidades mais poluídas do Brasil, um lugar em que os índices de consumo (e portanto tráfico) de drogas batem os tetos em escala planetária, uma cidade violenta e desigual. É tempo de trazermos isso para a frente do debate. Por enquanto, uma espécie de paisagismo do imaginário nos impregna a visão, dando a idéia de um tranqüilo e benevolente pôr-de-sol, quando sobrevivemos, mal e porcamente, a uma temível e cada vez mais violenta noite.