E no quinto dia útil, já sem matéria prima, Deus fez os otários. Juntou todos, deu um carro com buzina estridente para cada um deles e soltou-os em Porto Alegre. E Deus disse: “Buzinai, idiotas”.
Hoje é dia do segundo turno das eleições. Moro ao lado de uma escola onde existem diversas seções de votação. A rua não tem largura. Ficam duas fileiras de carros estacionados e, no meio, passa somente uma fila de carros por vez. Assim, os otários de trás precisam esperar alguns segundos quando o otário da frente quer estacionar. Forma-se uma fila de cinco, seis carros, sempre desfeita depois de pouquíssimo tempo. Pouquíssimo tempo que é suficiente para que os otários de trás resolvam botar a mão na buzina.
Os otários, é claro, nunca pensam que ao buzinar incomodam o bairro inteiro. Incomodam alguém que, como eu, está estudando e lendo desde às sete da manhã. Incomodam a senhora aqui do primeiro andar, que tem Alzheimer e cuja janela fica de frente para a rua. Enchem o saco do dono do bar, que, desde cede, ouço dizer coisas do tipo: “Pra que buzinar, tchê?”; “Pára com isso, por favor!”; “Mas que exagero, tchê! A senhora poderia ter a delicadeza de parar de buzinar?”; “Vai tomar banho, porra!”… Atazanam os estudantes do prédio da frente, que chegaram tarde e tentam curar a ressaca.
Que tipo de otário pensaria que, por estar num carro, tem o direito de exigir que todos os outros se movam e executem tarefas tão ligeiramente quanto ele, otário, deseja? Que tipo de otário se comporta como uma criança chorona no supermercado, gritando, batendo o pé, perdendo a compostura de morador do Moinhos de Vento? Resposta: o motorista portoalegrense, esse mesmo que está buzinando agora, nos ouvidos do dono do bar, da senhora com Alzheimer, dos estudantes, e meus, nos ouvidos, enfim, do bairro inteiro, como se o mundo devesse obedecer o seu capricho bunda-mole de nunca esperar, nunca parar, nunca ficar atrás de ninguém.
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